João Cândido: trama de Paraíso do Tuiuti, ‘Almirante Negro’ é considerado herói em cidade do RS | Rio Grande do Sul

Busto de João Cândido, o “Almirante Negro”, em Encruzilhada do Sul, cidade natal do marinheiro — Foto: Assessoria de Comunicação do município de Encruzilhada do Sul/Divulgação

A trajetória de “Almirante Negro”, como foi apelidado, é motivo de orgulho para o município, que tem 23 mil habitantes. Numa das principais avenidas da cidade, há um busto de Cândido.

João Cândido lutou contra o ataques e chicotadas foram aplicados aos marinheiros, que eram, na maioria das vezes, negros. Para o pesquisador Antônio Bica, autor do livro “João Cândido – O herói negro da Encruzilhada do Sul”, o soldado foi um exemplo de coragem.

“Ele foi um herói em todos os sentidos, inclusive na coragem. Era um absurdo para os brancos que um negro pobre parasse o país”, diz ele.

Enredo e Samba: os desfiles do Paraíso do Tuiuti pelo reconhecimento de João Candido como herói brasileiro

João Cândido Felisberto nasceu em 1880, filho de ex-escravos. Ainda adolescente morou em Rio Pardo e Porto Alegre, matriculando-se em uma escola preparatória para marinheiros. Após ingressar na Marinha, Cândido foi para o Rio de Janeiro e trabalhou na educação de jovens que ingressavam nas Forças Armadas.

Respeitado pelos colegas, tornou-se um líder, a ponto de representar os colegas na principal reivindicação do início do século XX: o fim do castigo físico. Embora tenha sido abolida cerca de 10 anos antes, a prática era constante.

“Este homem viu o sofrimento de seus irmãos. Eles esticaram a corda e a encheram de agulhas. Eles os pegavam, amarravam num tronco e davam uma “tunda”. Já faz muito tempo que a escravidão passou e eles continuaram escravos”, diz Bica.

Na Rebelião do Chicote, os marinheiros assumiram o controle dos navios e apontaram seus canhões para o Rio de Janeiro. O governo prometeu acabar com a punição e a anistia para os rebeldes. Porém, Cândido foi expulso da Marinha e preso.

O Encouraçado Minas Gerais e o Almirante Negro — Foto: Montagem

O “Almirante Negro” ele morreu no Rio de Janeiro, em 1969, aos 89 anos. Passou o fim da vida em São João do Meriti, onde ainda mora o único filho vivo de Cândido, Adalberto do Nascimento Cândido.

“Meu pai era cidadão gaúcho. Aos 14 anos ingressou na Marinha do Brasil e foi líder do movimento Revolta do Chicote em 1910. É um herói do povo”, afirma.

Estátua em homenagem a João Cândido no centro do Rio — Foto: João Ricardo Gonçalves/g1

“O objetivo da trama é colocar João Candido no lugar do herói brasileiro, que ele merece”, afirma o carnavalesco.

Paraíso do Tuiuti desfila pelo reconhecimento de João Candido como herói brasileiro — Foto: Reprodução TV Globo

Compatriota de Cândido, o pesquisador Antônio Bica concorda.

“João Cândido deveria ser estudado nas escolas e universidades. Esse homem estava fora do seu tempo”, enfatiza.

‘Almirante Negro’ é enredo de Tuiuti para 2024 — Foto: Divulgação

Confira a letra do samba:

Liberdade no coração
João e o dragão de Aldir
A cidade em louvor
Descida do Morro do Tuiuti

Nas águas da Guanabara
Novamente o azul de Araras
Nasce um herói libertador
O mar com ondas prateadas
Eu escondi o chicote na escuridão
Desde os tempos do empresário cruel
Eles eram navios de guerra, sem paz
As costas marcadas por muitas marés
O vento varreu a escuridão
Punições e tortura no porão e no convés

Ôôô Casa Grande não suporta tempestades
Ei, você veio dos Pampas para salvar Minas Gerais

Lerê lerê mais um negro lutando pelo irmão
Leia e diga nunca mais escravidão

Meu Nego… O time se rendeu
E todo mundo está emocionado
Ele veio ao porto para se despedir
OH! Eu nego… a anistia foi a paquera
Mas o Palácio do Catete
Traição favorita

O luto dos tumbeiros
Atrás dos navios antigos
Uma nova prisão
Outra pá cheia de limão
Glória aos humildes pescadores
Yemanjá com suas flores
E o cais da luta ancestral

Salve o Almirante Negro
O que faz um enredo de samba
Imortal!

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