‘O racismo religioso está basicamente tentando nos matar

Estimated read time 8 min read

Considerado o estado com maior número de terreiros do Brasil (estimativas gratuitas contam 65 mil), o Rio Grande do Sul realizou nesta segunda-feira (22) a XVI Marcha Estadual pela Vida e Liberdade Religiosa. Acompanhada ao som de tambores e machados, a marcha com o tema “Paz e Justiça na Terra” reuniu adeptos de religiões africanas de diversas regiões do país, representantes de outras religiões e movimentos sociais, parlamentares gaúchos , sindicatos e apoiantes .

:: Intolerância religiosa é responsável por um terço dos casos de racismo no Brasil, mostra pesquisa ::

Organizada pela Comissão inter-religiosa e multiagências, a marcha foi precedida pelo “Seminário Desafios Globais: Construindo Pontes para a Paz e a Justiça na Terra”, uma iniciativa que visa abordar os conflitos armados que assolam a Palestina, a África e a Europa. O evento aconteceu no Edifício DPR.

“Este seminário é importante porque não levantamos apenas o tema do racismo religioso, mas também da paz religiosa e da paz mundial. E também abordamos a saúde do planeta. Nossa teologia nos diz para nascer, crescer, reproduzir e cuidar da Terra, porque a Terra está doente. Se a Terra morrer, brancos e negros, de todas as religiões, morrerão, porque viemos da terra, afirma babalorixá no Ilê Asé Iyemonjá Omi Olodô e coordenador nacional da Rede Nacional Afro-Brasileira de Religião e Saúde (Renafro), Baba Diba de Iyemonjá.


Seminário Desafios Globais: Construindo Pontes para a Paz e a Justiça na Terra / Foto: Fabiana Reinholz

10 anos de espera por uma nova Conferência

A concentração do desfile foi realizada em frente ao Palácio Piratini, com canto de orixás, intervenções artísticas e marchantes. A lei exigia a realização da Segunda Conferência Popular do Terreiro, que foi cancelada quatro vezes pelo governo. Durante a manifestação e mobilização dos parlamentares, a comitiva foi recebida pelo secretário adjunto da DPR, Gustavo Paim.


O grupo se reuniu com representantes do Hospital Civil / Foto: Arquivo Pessoal

Segundo Íyá Sandrali de Campos Bueno, o Executivo realizará uma nova reunião com o Comitê Organizador para se posicionar sobre a Conferência e suas possíveis datas.

“As conferências agendadas e definidas não podem ser canceladas dentro de uma semana por falta de recursos. Entregamos o manifesto da marcha ao secretário. É um belo passo em frente, a bateria funciona aqui. Há indícios de que podemos conversar com o governador. “Isto é importante, porque os hospitais são pioneiros nesta política”, afirmou. A primeira conferência ocorreu em 2014.

De acordo com o Censo 2010 (os números religiosos do censo mais recente, de 2022, ainda não estão disponíveis) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil existem cerca de 600 mil pessoas que se declaram adeptas da religião . religiões de origem africana, sendo 407 mil adeptos da Umbanda, 167 mil adeptos do Candomblé e 14 mil adeptos de outras religiões, incluindo o Batuque. Dos 407.332 brasileiros que se declararam umbandistas, 140.315 estavam internados, o que representa 34,45% do total.


Manifestações aconteceram no centro de Porto Alegre / Foto: Fabiana Reinholz

“As pessoas nos perguntam por que isso está acontecendo e a resposta é que o país é tão racista, tão intolerante que o nosso movimento também é maior que tudo isso”, comentou Sandrali.

Após a concentração, o desfile seguiu pelas ruas da capital gaúcha, com parada na prefeitura onde foram varridas as escadarias da sede do Executivo da cidade, e em seguida seguiu até a Fábrica do Gasômetro.

Combatendo o Racismo Religioso

“Isto já não é um protesto, é mais uma etapa da mesma manifestação que começou há 16 anos porque a mãe de Gilda chamou a atenção para o racismo e a perseguição religiosa, especialmente contra as religiões de base africana. O racismo religioso continua a ocorrer. Mas estamos lutando, estamos juntos, juntos, e vemos cada vez mais a consciência da necessidade de mudar o sistema em que vivemos. O racismo não faz mais parte do sistema, mas do próprio sistema”, enfatizou o bispo diocesano da Diocese do Sul de Porto Alegre, Humberto Maiztegui Gonçalves.

:: Intolerância religiosa: Bahia tem casos simbólicos, falta de dados específicos e não são notificados ::

Com base em levantamento da startup JusRacial, em 2023 haverá 176 mil casos de racismo tramitando na Justiça do país, e um terço deles (33%) envolve intolerância religiosa.

“As religiões baseadas em África lembram-se de algo que a sociedade dominante não quer lembrar, nomeadamente uma religião que se constrói sobre a morte, o sangue e o sacrifício de comunidades inteiras que continuam a ser mortas”, disse Humberto.


Varrendo a escadaria da Prefeitura / Foto: Fabiana Reinholz

Numa alusão ao Dia Nacional da Erradicação da Intolerância Religiosa que se celebra todos os dias 21 de Janeiro, esta acção, segundo Baba Diba, visa chamar a atenção para o racismo religioso cada vez mais difundido.

“Pessoas estão morrendo, um exemplo vivo que está na memória de todos é a mãe de Bernadette que foi morta com vários tiros no rosto. Isso só aconteceu porque ele era yalorixá, apesar de lutar por terras e territórios. Mas essa é a atitude deles em relação aos líderes religiosos, que são tratados, inclusive pela Brigada Militar deste hospital, como pessoas marginais. A abordagem deles é desrespeitosa e equivocada. “Precisamos que os países e as instituições estejam verdadeiramente empenhados na luta contra o racismo religioso”, disse ele.


Baba Diba, Ìyá Claudia Chú e Íyá Sandrali / Foto: Fabiana Reinholz

Ìyá Claudia Chú, do Alvorada, teve seu terreiro atacado por brigadeiro enquanto realizava ritual com orixás encarnados. Naquela ocasião tentaram levar os tambores e as pessoas presentes. “Vivemos oito anos de perseguição durante os quais as autoridades, tanto os tribunais como a polícia, que deveriam nos apoiar, em vez disso levaram a cabo perseguições baseadas na religião.”

Segundo ele, o racismo religioso é muito forte no Alvorada. “Meu território é constantemente perseguido. O poder do fingir abre a porta e fingimos acreditar para podermos sobreviver, podermos tocar os tambores e praticar as tradições que os nossos antepassados ​​nos deixaram e que queremos deixar para o nosso futuro”, explicou.


Acompanhado ao som de tambores e machados, o desfile aconteceu em frente ao Palácio Piratini / Foto: Fabiana Reinholz

Para Ìyá Claudia, a marcha é mais uma vez um simbolismo de luta, resistência à intolerância religiosa e ao racismo religioso. “Nossos direitos, nosso território é atacado por leis que não são obedecidas. Meu território era sagrado e agora está sob ataque, hoje sou uma das Iyas Claúdias perseguidas e enfrento de frente o racismo religioso. Precisamos de toda a força para perceber o que é a justiça, o que são o racismo e a intolerância. Pedimos respeito, mas honestamente.”

Segundo Baba Diba, as instituições precisam de se comprometer com a eliminação do racismo religioso. “O racismo religioso está essencialmente tentando nos matar. Essa é a pior face do racismo porque eles sabem que estamos antologicamente ligados à nossa sacralidade, e para matar a sacralidade que está dentro de nós, eles precisam nos matar”.

Para as pessoas de fé, é importante tomar medidas estaduais, federais e municipais para realmente acabar com o racismo religioso e punir os racistas. “O RS é o maior estado em número de terreiros do Brasil. No nosso país não se consegue dormir sem ouvir ao fundo o som dos tambores de batuque”, concluiu.


Entre os deputados gaúchos estão as deputadas federais Reginete Bispo, Maria do Rosário (ambas do PT), representando a deputada federal Daiana Santos (PCdoB), o deputado estadual Matheus Gomes (PSOL), representando o mandato da deputada Laura Sito (PT). ) e Bruna Rodrigues (PCdoB), e a vereadora de Viamão Fátima Maria (PT).


“No nosso estado não dá para dormir sem ouvir o som dos tambores de batuque ao fundo”, diz Baba Diba / Foto: Fabiana Reinholz / Foto: Fabiana Reinholz

“Eles dizem que nossa fé é má.
Mas as piores torturas envolvendo a escravidão e a guilhotina não tiveram origem na bruxaria.
Queimaram pátios, mataram soldados, forçaram crianças negras a cantar um hino que lhes ensinava que mereciam ser escravizados durante meio milénio.
Somos descendentes de reis e rainhas, somos protegidos pelos elementos da natureza, o ouro de Oxum brilha em nossa pele, a justiça de Xangô protege nossas cabeças.

Se um país é secular, então não pode ter instituições evangélicas. Deve haver igualdade de cor de pele, gênero e religião. E não diga que entende como nos sentimos quando somos atacados, pressionados e vendidos. Você não vai entender. Este é o legado de seus antepassados ​​e sua intolerância não pode me impedir, quem abre meu caminho tem a chave do futuro. Alupo, Alupo, Alupo, meu centro é o pai Bará”, poema lido por slam Micativa.


Montagem: Kátia Marko


+ There are no comments

Add yours