Crédito à fronteira – Jornal A Plateia

Ao completar 80 anos, que farei 23 em janeiro deste ano, vou me aposentar do trabalho jornalístico – o dever de estar atento às notícias para escrever sobre a atualidade ao longo do dia.
Vou me dedicar ao projeto História Ilustrada, que desenvolvemos no jornal Já há 30 anos.
É um livro de reportagens sobre temas históricos, fortemente ilustrado, com edições narrativas e jornalísticas.
Publicamos História Ilustrada do Rio Grande do Sul, História Ilustrada de Porto Alegre, Viamão 300 Anos.
A primeira coisa que quero fazer neste novo ciclo é o antigo projeto sobre a história do Livramento e do Rivera – “A Fronteira que escolheu a Paz”.
Esta é uma espécie de homenagem que quero prestar a esta terra que não me deu à luz, mas que me deu a base que me sustentou ao longo da minha vida, há muito desaparecida.
Nasci em Cacequi, mas minha família, atingida pela tragédia (meu pai, ferroviário, caiu na roda de um trem e cortou o braço), veio buscar recursos em Livramento. Tinha um ano quando nos mudamos, em 1945.
Cresci aqui, sempre morei nos subúrbios: Passinho das Lavadeiras, Vila Júlio de Castilhos, Pontilhão, Coxilha dos Loucos, Beco do Maragato. No meio da pobreza, honesto e trabalhador, absorvi as regras de convivência e solidariedade. Lá aprendi a ter esperança e a não desistir.
O Livramento me deu acesso à escola pública (meus pais não tinham condições de pagar). Escolas públicas de qualidade, no Grupo Escolar General Neto e no Colégio Estadual, professores que me abriram portas para um mundo que me era inacessível: Dona Hilda, que me ensinou a alfabetizar, Agapito, que me revelou sentimentos de fraternidade cristã, solidariedade e respeito pelas pessoas outros, o professor Muller que me ensinou os rudimentos do latim, que foi inestimável no embate interminável com as armadilhas do português, Alfredo Paiva, que me fez ler Machado de Assis e Eça de Queiróz, Dona Judith que me fez ver. É importante conhecer a história…são muitos e não só.
Seu Farias, da livraria da esquina da praça, nos viu – Kenny Braga e eu – olhando livros e nos deu de presente porque sabia que não tínhamos condições de comprá-los.
Dona Isolina, em cuja escolinha na sua sala aprendi a datilografar de graça, o que me garantiu meu primeiro emprego na Platéia, onde descobri o jornalismo.
Quando saí do Livramento, aos 17 anos, estava pronto, embora não percebesse. Estou pronto para ser cidadão e profissional e tenho certeza de que minha trajetória de mais de 60 anos não diminuiu o legado que daqui trago.
O trabalho que pretendo realizar é uma ideia antiga que formulei quando dirigi A Platéia, em 1982/83. Não fui mais longe, mas fiz minha primeira pesquisa lá. A principal inspiração para dar continuidade a este projeto vem agora de um valioso livro, do historiador Antonio Cacciatore de Garcia: “Fronteira Iluminada”. O livro, resultado de 30 anos de pesquisa documental em Lisboa, Madrid, Rio de Janeiro, Buenos Aires e Montevidéu, descreve a disputa secular entre Espanha e Portugal pelas terras do Novo Mundo, que começou antes mesmo do descobrimento. – mais de 500 anos de conflitos diplomáticos e confrontos armados, que, segundo Cacciatore, culminaram no tratado exemplar que deu origem a esta “fronteira de paz”.
Este é o contexto da história que vamos contar.
Um trabalho que envolve a participação de moradores santanenses e do Rio de Janeiro em todos os níveis – desde pesquisadores, historiadores, jornalistas, com seu acervo de conhecimentos sobre a cidade, até moradores, com suas histórias e memórias familiares. O apoio das autoridades públicas e dos empresários de ambos os lados também será crucial.
Todos sabem que esta fronteira é especial, poucos sabem como se tornou e como continua assim e, o mais importante, quão exemplar é num mundo onde as fronteiras são disputadas com armas.

+ There are no comments

Add yours